domingo, 24 de fevereiro de 2013

!E os latinos levam!

***Este texto contém spoilers ***
Tenho um fraco pelas malditas séries. Pior que sardinha, quando adolescente entrava em qualquer enlatado, desde as "Sessões de Sábado" na Globo, até o "Chaves". Mas quanto ao Chaves, tudo bem, eu acho. 

Viúva de X-Files e Seinfeld, virei addicta em "Breaking Bad" (criada justamente por Vince Gilligan, um dos roteiristas eXcers), a série da AMC que gira em torno de Walter White. Walt é um professor de química com câncer, que começa a fabricar metanfetamina para deixar alguma herança à família. Walt não tem nada a perder, e no entanto, vê destruir-se a vida que ele julgava ser o tesouro pelo qual vivervale a pena. No pequeno laboratório do deserto em que Walt abre a série, correndo de cuecas pela primeira vez, ele é apenas um cook sem eira nem beira, acompanhado pelo fiel escudeiro, o tolo e junkie pobretão Jesse Pinkman, o vendedor que trabalha nas esquinas erradas. Essa oposição entre o 'gênio' e o 'tolo' é base da primeira temporada, mas vai se modificando de modo muito interessante nas seguintes. Humor, drama e ação se mesclam enquanto Walt "Breaks bad", ou seja, vira um sujeito do crime. E Jesse, solitário e infeliz, palmilha todos e mais alguns dos infernos éticos de um grupo social para o qual dor e drogas (legais, ilegais) se balanceiam como água e álcool.   

Do link: http://www.esquire.com/features/esquire-100/cranston1007

É difícil não nos identificarmos com Walt, que do estreito e repetitivo mundo intraescolar consegue se sair muito bem tanto entre traficantes violentos e brainless - como Tuco Salamanca - e o manager Gus Fring, sujeito tranquilo, bem-educado, rico e cheio dos 'discurso corporativo', mano. É fato: quase todos nós poderíamos percorrer o Walt Way of Life, caminho que vai de um desejo legítimo por saúde para si e segurança para a família a uma disputa de poder orgulhosa na qual o fundamental é ser mais esperto que o oponente; um verdadeiro "Velho Oeste" no qual a violência continua sendo protagonista (a escolha de Albuquerque, Novo México, como a cidade-sede da série é bem significativa). Nesse caminho, já disse Vince Gilligan, a ideia é mostrar o estranhamento entre a ação e suas consequências - o modo como cada  'legítimo' ato de sobrevivência de Walt acaba desencadeando horrores nunca antes imaginados. 

À parte Jesse, figuras assustadoras de dependentes químicos com o rosto escarificado transitam pela série, mas Walt não lhes dedica nenhum frase, nenhum pensamento: "worthless junkies", é o que todos dizem, inteiramente à mercê do "produto" White e outros. Não são as substâncias de alto poder aditivo a garantia de uma freguesia cativa? White fabrica a morte, mas ela lhe garante a vida. Walt pratica regularmente o autoengano, no qual aparece sempre como vítima das circunstâncias; Jesse, elétron que circula no orbital White, e ele próprio, gênio cujo trabalho gira um capital gigantesco. Na interpretação magistral de Bryan Cranston, Walt começa a série inseguro. Olhos baixos, voz trêmula, recorrentes cenas correndo de cuecas sem rumo certo (Walt de cuecas - cuecas mesmo, brancas e sem graça, nem sungas nem boxers - é símbolo que remete à sua desorientação e fragilidade), e vai aplicando sua esperta careca química a bolar uma enorme diversidade de astuciosas armadilhas para seus inimigos. No grande trabalho vocal do ator, Walt começa a falar forte e grosso - olhar reto, postura desafiadora. Com direito a cenas engraçadíssimas como essa foto ao lado do trailer, no 1º Episódio. Como diz Hank no mesmo episódio, Walt segura uma arma como Keith Richards segura um copo de leite.

***
Algo que me incomoda desde o início da série é a representação dos hispânicos - em particular, os do cartel com que Walt guerreia. Hoje, vimos um episódio da 4a temporada na qual Gus leva Jesse para fabricar speed para o cartel. Esse junkie americano que encarna a estupidez no seriado tromba os químicos titulados do cartel e os vence. Também Walt leva a melhor sobre todos os latinos que encontra. Gus representa o bem-sucedido 'empresário' - estrangeiro, mas totalmente integrado ao mundo do Tio Sam - conseguindo sobrepujar o cartel mesmo com golpes toscos. Entre personagens absurdos brandindo machados e químicos tontos que escutam as ofensas de Jesse sem reação, os latinos são de uma estupidez absurda, estereotipada, de uma maldade e de uma violência sempre grotescas. Espanta que, nos nossos tempos, ainda se consinta com essa Doutrina Monroe via enlatados, que, como eu já disse, desde cedo me acostumaram ao seu ritmo. A moral da história é que os latinos sempre levam.

Sobre isso, agora um pouco triste, só consigo me lembrar da frase de Emiliano Zapata (que falou em espanhol, mas aqui vai): "Pobre México! Tão longe de Deus e tão perto dos Estados Unidos". Infelizmente, aqui estão as séries que nos aproximam do Tio Sam. E eu talvez precise deixar de ser uma sardinha (mas acho que só depois do fim de Breaking Bad, falow?).


sábado, 16 de fevereiro de 2013

Carta a J.L.B.



"Às vezes, não somos fáceis e sabemos disso. Por que teria de ser diferente? Por mais que o tempo passe, não há perspectiva de que uma nódoa na carne deixe de ser uma nódoa na carne. Quisera saber de ti, quanto tempo mais resta para que eu pudesse deixar um presente para você, algo realmente para carregar vida afora; algo que dure e não desbote com o tempo e as minhas dificuldades, mas fico aqui, sentada, sem poder me mexer com algo que não seja distração e desatenção para o mundo fora deste lugar, deste quarto, do elevador e da garagem, e o pequeno apêndice que há fora disso, aquele que vai entre o trabalho e a praça de todos os dias.
Uma coisa que você me ensinou a perceber é a perenidade em mim. Se alguém irascível pode tornar-se um pouco mais controlado, é que a coisa era só incidental, casual, não necessária. Mas se alguma insociabilidade se associa a um pouco de auto-estima; se à pessoa é possível evitar ser irascível, mas não deixa de ser cheia de si, então, é que ou a relação ou a pessoa são irrecuperáveis – e esse defeito não é defeito, é algo que te constitui, é uma perna, um pulmão, um coração, mas está em algum lugar menos palpável, essa fortaleza em ruínas que é a minha mente.
E o mundo lá fora, aquele depois que o carro sai da garagem, que o porteiro fecha o acesso, e as paisagens começam lentamente a se modificar, está aqui dentro, e talvez seja só inútil perder o sono para imaginar novos meios de isolar-se, isolar-se, isolar-se... quando teremos de tirar o lixo ao menos uma vez por semana.
Acho que ser, de algum jeito, um objeto do nosso tempo é a verdadeira solidão". (B. Viterbo)

sábado, 9 de fevereiro de 2013

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